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Estudos Especiais em I Coríntios preparados pelo Rev Silas Matos Pinto
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14º – CONDENADO OU PERDOADO

1 Coríntios 2.15,16 “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo”.

A agenda dos fóruns está lotada. Diariamente são julgados centenas de casos. Os crimes variam entre os mais comuns aos mais hediondos. Os réus variam entre jovens e idosos; mulheres e homens; entre os arrependidos e os que demonstram prazer no mal que praticaram. Todos estes criminosos se colocam diante de um juiz e de um corpo de jurados para receber sua sentença. Seu crime é exposto e os advogados de defesa e acusação apresentam suas argumentações a respeito do crime cometido. A defesa procura de todas as formas provar a inocência do réu ou ao menos atenuar a possível pena. O advogado de acusação procura valorizar cada ato, por mais simples que seja, para fazer com que os jurados e o juiz possam ficar horrorizados com o acontecido e assim sejam duros no seu julgamento final. Todas as testemunhas são convidadas a depor e no seu depoimento são conclamadas a falar a verdade e os advogados tentam extrair delas tudo o que for possível para condenar ou justificar o réu. No final de todo esse trabalho o juiz ouve o parecer dos jurados e julga: culpado ou inocente.

É possível que haja um crime sendo praticado nesse momento. As estatísticas trazem um resultado assustador. Mesmo em tempo de paz as mortes continuam a acontecer. Às vezes morre mais gente em época de paz do que na guerra. As pessoas se matam constantemente.

Mas os crimes não são apenas de ordem física. Existem formas de matar uma pessoa sem tirar a sua vida. Muitos maridos estão sendo feridos mortalmente por suas esposas com palavras impensadas. Do mesmo modo, muitas mulheres também têm sido feridas na alma pelas palavras e atitudes de seus maridos. Filhos são desestimulados por causa da violência da língua. Às vezes uma palavra dita de forma impensada produz muito mais dor e tristeza do que uma facada ou um tiro no peito. É por isso que muitas famílias estão se desfacelando diariamente. Os seus membros não estão se preocupando com o sentimento do próximo e assim ferem mortalmente aquele a quem prometeram amar e cuidar por toda a vida.

Outro tipo de crime tem sido cometido e creio que com uma frequência ainda maior. É o crime do pecado. O pecado é um crime cometido contra Deus. O pecado é a quebra da lei de Deus. Qualquer atitude que contrarie a vontade de Deus é pecado e, consequentemente, é um crime.

O homem começou a cometer esse crime quando ainda eram apenas um casal, morando no mais belo lugar já habitado pelos homens. Nesse paraíso os nossos pais cometeram um crime terrível que trouxe conseqüências para eles, para os seus descendentes e para toda a criação. O crime do homem foi punido por Deus com o pior dos castigos.

Todo crime é passível de punição. O que configura um crime é a quebra de uma lei. Se não houvesse nenhuma lei não haveria crime. Mas as leis existem e a sua quebra exige punição. O homem foi punido por causa do seu crime. A condenação prevista era a morte, sendo assim, a punição de Adão e Eva e de toda a raça humana que peca, como e pior do que Adão, não poderia ser outra a não ser a morte.

A morte entrou no mundo com o pecado e o homem passou a morrer. O homem que foi criado para viver eternamente, de repente, começou a morrer fisicamente. Os cabelos brancos e as rugas; o cansaço e a fraqueza são as marcas dessa degeneração que leva à morte. Mas a pior morte do homem foi a espiritual. Ele passou a descrer de Deus, a não entender as suas manifestações, a ser totalmente ignorante nas coisas espirituais e consequentemente se afastou de Deus. A condenação do homem afetou sua existência física e espiritual.

A condenação por causa do pecado trouxe conseqüências imediatas, sendo aplicadas nessa vida presente, e deixou o homem sob a expectativa de uma nova condenação, essa eterna, a ser recebida no julgamento final. O homem condenado aqui espera o julgamento final, que vai ratificar a condenação terrena ou vai liberá-lo da condenação eterna. Os pecadores condenados nunca mais terão outra oportunidade de mudar a sentença. Os pecadores perdoadas viverão ao lado de Cristo por toda a eternidade.

No julgamento terreno o réu se livra da pena com álibis que comprovem sua inocência ou com a apresentação do verdadeiro culpado. No caso do julgamento divino, como se livrar da condenação eterna? Se todos são pecadores e conscientes de que merecem todo o castigo por terem quebrado a lei de Deus por livre vontade, como esperar alguma misericórdia? Será que existe alguma chance para os pecadores?

É esse o nosso tema: A MISERICÓRDIA DE DEUS NOS GARANTE O PERDÃO.

Perdoar é justificar. Justificar é absolver da culpa. É declarar que o culpado não é mais culpado. É fazer do culpado um inocente declarando-o justo. É dizer que o condenado não mais sofrerá sua merecida pena porque sua culpa foi retirada. O condenado, após a justificação, se torna um liberto como qualquer outro, sem nada que conste contra a sua moral. Sua culpa foi retirada e não há mais nada que o condene.

A Bíblia ensina que o crente foi justificado por Jesus Cristo. Com sua morte ele tomou o lugar e a culpa dos pecadores. Ele sofreu o castigo no lugar dos pecadores que desejou salvar. Isso nos leva a crer que no momento do juiz (Jesus) bater o martelo os pecadores perdoados não serão declarados culpados e condenados ao sofrimento eterno, pelo contrário, ele dirá que estamos limpos como a neve. Puros como se nunca tivéssemos pecado contra ele. E por causa dessa justificação nós seremos inseridos nos céus para lá vivermos por toda a eternidade.

A justificação, que garante a liberdade, não é produzida por qualquer ato de obediência ou por méritos humanos. A misericórdia de Deus é que garantirá aos pecadores perdoados a certeza de poder entrar no seu santo repouso. A misericórdia de Deus permitirá que homens pecadores e merecedores de todo o castigo previsto em sua lei possam habitar com ele nos céus.

O versículo base de nosso estudo levantou o tema e ele mesmo nos dá a argumentação necessária para entendermos essas questões. A primeira delas é queQUEM FOI PERDOADO POR CRISTO NÃO PODE SER CONDENADO POR HOMENS. O versículo disse: “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém”.

Os meios de comunicação vez por outra anunciam algum crime provocado por alguém que buscou fazer justiça com as próprias mãos. A justiça de nosso país é lentíssima. Os processos se arrastam por anos e quando o criminoso chega a ser julgado ninguém lembra mais do crime cometido. Por causa dessa lentidão e muitas vezes por causa da impunidade e falhas na aplicação da justiça é que aparecem os conhecidos justiceiros. Eles são homens que não acreditam na justiça e por conta disto promovem o que para eles é a justiça.

Os justiceiros cerceiam a liberdade da pessoa que cometeu algum tipo de delito, transporta-o para um lugar deserto e ali o espanca, maltrata e depois de muita violência o mata. Isso aconteceu no Rio de Janeiro a poucos meses. Policiais levaram um grupo de jovens infratores para o mato e ali os executaram. Também há poucos dias um homem, funcionário público, atirou em sua mulher e num professor universitário, matando-o e deixando sua mulher gravemente ferida, por desconfiar que os dois estavam tendo um caso amoroso.

A questão a ser discutida é: Quem tem autoridade para julgar. Quem é que pode dizer se uma pessoa é culpada ou inocente. Quem é que pode aplicar um castigo sobre uma pessoa culpada. Vimos diariamente policiais abusarem de sua autoridade espancando, maltratando e envergonhando pessoas nas ruas por julgá-las culpadas. Esse não é seu papel. O papel da polícia é recolher os suspeitos e uma vez tendo certeza de sua culpa devem entregá-los para que a justiça aplique a pena que lhes cabe. Qualquer ato de violência aplicado pela polícia ou por quem quer que seja, sobre uma pessoa que ainda não foi julgada pela autoridade competente, é crime.

Se as pessoas não aceitarem a autoridade do juiz elas não darão ouvidos ao seu julgamento e mesmo que o juiz tenha declaro alguém inocente eles farão a sua própria justiça sobre o inocentado, fazendo-o culpado. Eles aplicarão a pena que o juiz não aplicou. Nesse caso o justiceiro toma para si a autoridade que compete ao juiz.

A Bíblia cita um caso claro de justiceiros. Os judeus pegaram uma mulher que estava se prostituindo e a trouxeram até Jesus. Eles já a haviam condenado, pois todos já estavam com pedras nas mãos para apedrejá-la, mas esperavam que Jesus ratificasse sua decisão. Eles não trouxeram os dois adúlteros para serem julgados. Julgaram que só a mulher era culpada, como se adultério pudesse ser cometido apenas por uma pessoa. Jesus mostrou que eles não tinham autoridade para condená-la e muito menos caráter impoluto para exigir qualquer tipo de punição do pecado alheio. Os algozes daquela mulher acabaram justificando-a nos seus próprios pecados. Eles não a perdoaram por ela não ser culpada. Eles não a condenaram por serem todos eles culpados como ela.

O pecador não deve ser justificado por que todos somos pecadores. Se assim julgássemos ninguém nunca seria condenado, pois todos cometemos algum tipo de delito em algum tempo de nossa vida. Se pensássemos assim diríamos que o pecado de um justifica o pecado de outro e a realidade não é assim. Todo pecado é crime contra Deus e deve ser tratado com a aplicação das penas instituídas por Deus e não passando as mãos na cabeça do culpado para esconder o próprio erro.

O pecado tem de ser punido porque ele ofende a Deus, assim como o crime tem de ser punido porque o criminoso desobedeceu a uma lei instituída. Até mesmo as autoridades instituídas, de algum modo, são culpadas. Elas não podem deixar de julgar simplesmente por que um dia foram culpadas de algum delito. Elas devem julgar e condenar o culpado por que o culpado se condenou ao quebrar uma lei instituída para o país. Se o juiz é réu ele também deve ser julgado e condenado se for o caso.

Deus perdoa o pecador. Ele perdoa alguns tipos de criminosos e pecadores que qualquer um de nós os mandaria imediatamente para a forca. Deus perdoa pessoas que cometeram os piores tipos de crimes e pecados e os faz tão puros como o branco mais branco. O sangue de Jesus, vertido na cruz, é capaz de purificar qualquer pecador, por pior que seja o seu pecado aos nossos olhos. E se Deus decidiu perdoar, quem somos nós para condenar uma pessoa dessas?

Zaqueu é um caso típico da justificação divina. Ele foi justificado por Jesus e ninguém mais poderia condená-lo. Ele era um homem desonesto e odiado por seus compatriotas. Ele roubava ao coletar os impostos instituídos por Roma. Mas um dia Jesus foi ao seu encontro e se convidou para jantar em sua casa. Os seguidores de Jesus e a multidão se escandalizaram disso. Eles não podiam aceitar que uma pessoa como Jesus pudesse se assentar à mesa com um homem pecador como aquele. Zaqueu não chamou Jesus para ir à sua casa. O convite foi feito por Jesus. Jesus queria que aquele pecador se tornasse um justo. Ele não estava preocupado com a sua vida pecaminosa do passado. Não se importou com os crimes cometidos no passado. Jesus não se preocupou em saber quem era Zaqueu e o que ele havia feito, mas em quem ele se tornaria após esse encontro.

Jesus quis justificar o pecador Zaqueu e tratá-lo com qualquer outro homem honrado da sociedade. Quem naquela multidão poderia recriminar a atitude de Cristo ou mesmo condenar as atitudes de Zaqueu? A partir do encontro com Jesus Zaqueu se converteu. O Espírito Santo entrou em seu coração. Naquele momento Zaqueu estava salvo. Deus não mais o condenaria. A salvação da condenação no juízo de Deus foi declarada por Jesus a Zaqueu naquele momento. Se Jesus perdoou ninguém poderá condenar.

Creio que o texto mais claro a respeito da Justificação e da impossibilidade de um homem condenar àquele a quem Jesus justificou é Romanos 2.1-8. Faremos um comentário a seu respeito com o uso do texto.

O texto é iniciado com um alerta ao justiceiro: “Portanto és indesculpável, ó homem, quando julgas, a quem quer que seja; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas”.  Paulo deixa bem claro que nenhum homem tem a autoridade e a capacidade para julgar a outro pecador. Para esse julgamento Deus levantou aqueles a quem instituiu como autoridade em Sua igreja. Quando alguém se faz dono da justiça atrai para si o juízo de Deus, pois exige do outro a pureza que ele mesmo não vivencia.

Já falei sobre os insatisfeitos com a justiça que procuram fazer justiça com as próprias mãos. O profeta Jonas foi um desses. Ele resolveu não cumprir o seu dever profético por crer que Deus seria misericordioso com quem ele desejava ver destruído. Se ficasse calado e não pregasse sobre o juízo de Deus, Deus destruiria a cidade de Nínive e isso agradaria a Jonas. Desse modo Paulo alerta para essa verdade. Ele diz: “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas”. Fazer justiça com as próprias mãos, no nosso caso, é acusar severamente um irmão que caiu em pecado e tratá-lo com desprezo exigindo que seja expulso da igreja e do nosso meio, é o mesmo que descrer dos métodos usados por Deus para fazer justiça contra alguém que ele mesmo ao julgar, condenou ou absolveu como lhe aprouve. É, também, o mesmo que dizer que Deus não sabe ser justo e você que julgou e condenou, é mais justo do que Deus.

Jesus fez um alerta aos judeus quanto ao julgamento alheio. Ele mandou que antes de condenar o próximo deveriam retirar a trave do próprio olho. Eles estavam sempre prontos a condenar os outros, mas nunca se preocupavam com os seus próprios erros. Aqui Paulo disse: Tu, ó homem, que condenas os que praticam tais coisas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus? Ninguém escapará impune do julgamento de Deus. Ninguém pode se esconder de seus olhos. Ele não é como a justiça humana que demora e falha em seu julgamento. Todos os culpados são julgados corretamente.

Ao julgar e condenar o próximo a pessoa que se julga justa e irrepreensível se esquece de algo essencial para o cristão: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” Se somos justos e andamos em correção é porque descobrimos o erro praticado e procuramos nos corrigir. Só que esse reconhecimento do erro não vem de nós mesmos. É Deus quem, por misericórdia, conduz o homem ao arrependimento. Foi assim conosco e é também com o pecador que condenamos com nossas atitudes, esquecendo-nos de que a bondade de Deus pode levá-lo também ao arrependimento, como aconteceu conosco.

O legalista é o homem que acha que ele é o melhor executor da lei. Ele é o santo, puro, irrepreensível, dono da moral e dos bons costumes. Todos são errados e ele está sempre correto e puro. Ele deve julgar e condenar por ser bom em si mesmo. O seu coração duro não permite misericórdia. Quer ver todos os que praticaram erros serem humilhados publicamente e desse ato de humilhação alheia retira um enorme prazer. Para esses, Paulo disse: “Mas, segundo a tua dureza de coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento: A vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade; mas ira e indignação aos facciosos, que desobedecem à verdade e obedecem à justiça”. O homem que julga sem misericórdia acumula contra si mesmo a ira de Deus, e pede para si a mesma falta de misericórdia na hora de receber a sua pena.

Deus não nos fez juízes. Eles nos incumbiu de sermos proclamadores da sua graça. A justiça de Deus se revelou em Jesus, que morrendo na cruz perdoou e declarou justos e livres da ira de Deus todos aqueles que crerem nele como único e suficiente salvador. A autoridade de julgar cabe a Deus e a quem ele instituir para esse cargo. Não cabe a nós dizer que alguém vai para o inferno, e sim dizer-lhe que se arrepender de seus pecados e aceitar a justiça de Deus em Jesus Cristo será salvo e terá o céu.

Dissemos que quem foi perdoado por Cristo não pode ser condenado por homens. Falamos isso baseado no que Paulo escreveu: “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém”. Homem espiritual é aquele que deixou de ser guiado pelo espírito do mundo e passou a ser guiado pelo Espírito Santo de Deus. Esse homem espiritual é capacitado pelo Espírito Santo a julgar o que é certo e o que é errado. Ele é capaz de discernir entre o bem e o mal e por isso julga todas as coisas. O Espírito Santo o capacita a dizer se algo é certo ou errado e a agir corretamente.

Mas Paulo disse que “ele não é julgado por ninguém”. Nenhum homem merece a salvação. Todos são pecadores e merecedores do castigo eterno. Mas Deus resolveu, entre os condenados, escolher aqueles a quem desejou salvar. A esses ele aplicou a justiça de Jesus.

Esses homens não foram obedientes, puros e santos como Deus exige, mas Deus imputou, ou seja, determinou que toda a obediência e justiça e santidade vivida e praticada por Jesus Cristo fossem aplicadas na vida desses homens que ele quis salvar. Se o próprio Deus que sabia de toda a sujeira da alma desses homens desejou e permitiu que estivessem ao seu lado, quem é o homem para dizer que ele está errado?

Se Deus disse que o crente é santo, então o crente é o mais puro de todos os homens. Se Deus declarou a inocência do culpado, o culpado passou a ser inocente e ninguém pode dizer o contrário. A justificação que Cristo imputou na vida do crente faz dele, diante de Deus, o mais puro, santo e perfeito dos homens.

Nosso segundo ponto de argumentação é que AS RAZÕES DO PERDÃO DO HOMEM ESTÃO EM DEUS. Diz o versículo: “Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir?”

Dona Maria é um mulher muito bonita. Ela tem os olhos mais belos que alguém poderia ter. Seus cabelos brilham ao sol e ofuscam a beleza das outras mulheres. Ao passar na rua ela chama a atenção de todos. O seu marido é um homem pacato e simples. É desprovido de beleza e de bens materiais. Todos gostam muito dele, mas o criticam por amar muito sua esposa. Dona Maria sai muito de casa e fica horas na rua. As pessoas não sabem para onde ela vai, mas a julgam, pois sempre sai de casa arrumada e cheirosa. Todos desconfiam dela, menos o marido. Isto é imperdoável para os vizinhos. Como pode um homem tão bom conviver assim com essa aí? Será que ele não vê que ela o trai? E apesar de tudo, ele ainda é muito feliz com ela.

Você deve conhecer algum caso parecido. Todos se perguntam sobre o por quê de a pessoa que deveria estar ofendida não está. É que o marido ama. A causa da falta de desconfiança está no coração do marido e não nas atitudes da esposa. A pessoa que ama olha apenas para as boas qualidades, para o seu desejo de tê-la sempre por perto e com isto as desconfianças desaparecem. Se ele decidiu confiar, então não tem motivos para desconfiar. Se ele quer vê-la como a mais pura das mulheres nenhum vizinho pode recriminá-lo. Ninguém tem essa autoridade sobre sua vida.

Deus agiu assim com o pecador. A diferença reside no fato de ele não ter deixado o crime do pecador impune. Deus puniu o pecador quando matou o seu único filho na cruz. Ele mostrou toda a sua indignação contra o pecado dos homens em cada chicotada que aqueles guardas deram em Jesus. Ele mostrou sua ira contra o pecado em cada martelada que foi dada nos pregos que furaram as mãos e os pés de Jesus. Sua revolta contra o pecado se manifestou na zombaria do povo, no escárnio que ele fez Jesus suportar, na lança que perfurou os pulmões de Cristo. Cada ato de violência sofrido por Jesus manifesta toda a indignação e a ira de Deus contra todos os atos pecaminosos dos homens a quem ele desejou salvar. Sendo assim ele não deixou o pecado impune, mas o puniu da forma mais cruel que alguém poderia ser punido.

Depois de punir os homens com seus pecados, matando cruelmente Jesus Cristo lá na cruz, Deus passou a olhar para os seus amados e amadas como se eles nunca tivessem pecado. Deus passou a olhar para os seus escolhidos como se fôssemos os homens mais santos e puros que já habitaram nesse mundo. Mas a causa dessa pureza não está em nós. Na realidade não somos puros e muito menos perfeitos. Estamos muito longe do ideal de perfeição exigido por Deus. A causa do perdão de Deus não está em nós, está nele mesmo.

Uma senhora foi traída por seu marido que lhe fora fiel nos vários anos de casamento. Eles sempre se deram muito bem. Nunca faltou nada de um para o outro. O carinho que aquece o coração, as carícias que despertam o desejo, o sorriso que alegra o dia, o diálogo que divide as angústias e as alegrias e todos os itens necessárias para a manutenção do casamento feliz sempre estiveram presentes. Mas de repente ele caiu em pecado e trouxe muita tristeza para o seu lar. A dor da traição lhe foi pior que a maior das violências. Todas as juras de amor caíram por terra. Todos os carinhos que ele lhe fez foram lembrados com revolta. Todos os beijos de amor passaram a ter gosto de fel. E depois da descoberta da traição ele chegou chorando e disse: Me perdoa!?

Ai! O perdão é caríssimo! Caríssimo para quem recebe e é muito mais caro para quem oferece. O pedido de perdão revela o reconhecimento do erro. Mostra que o infrator mudaria a situação se pudesse voltar no tempo. Ele agiria diferente se pudesse. Mas não pode. A única coisa que o marido traidor pode fazer é implorar pelo perdão e esperar que um dia seja perdoado.

Passar por cima de todas as feridas que a traição produziu é muito dolorido. Cada lembrança é uma punhalada. Todas as palavras, gestos e olhares em direção ao marido traidor fará com que a esposa traída vivencie de novo toda dor. Mas ela está diante de uma decisão: Perdoar ou não? Haveria motivos para perdoar?

A maior questão a respeito do perdão é encontrar justificativas que levem ao perdão. O marido sabia da dor que ia causar? Sim! Ele sabia que isso é errado? Sim! Ele sabia que ia ferir a esposa e os filhos? Sim! Todas as perguntas levarão a total consciência do traidor. Ele sabia de todo mal que estava causando e mesmo assim preferiu a traição. Como encontrar justificativa para perdoar? A minha resposta é que não existe justificativa no traidor que leve ao perdão.

Ninguém merece perdão. Nenhuma justificativa dada por quem praticou o erro fará a pessoa perdoar. A única forma de perdoar é olhar para o perdão que a própria esposa recebeu de Deus. Se a esposa for uma cristã que reconhece que o seu pecado a levaria à condenação da morte e mesmo assim foi perdoada, ela perdoará. Somente o cristão tem motivos para perdoar. Sendo assim posso afirmar que não existe razão no culpado que possa convencer a pessoa traída a perdoá-lo. A razão para o perdão estará na morte de Cristo que nos traz perdão.

Deus é a pessoa traída. Foi ele quem deu tudo o que o homem necessitava e mesmo assim o homem o traiu. Não há nenhuma justificativa que o homem possa dar para conseguir convencer Deus de que é inocente. Deus proporcionou ao homem tudo o que ele necessita para viver em paz. Deu sua companhia e amizade e mesmo assim o homem preferiu trair àquele que mais o amou. O homem traiu e trai consciente. Essa consciência do que é errado retira do homem qualquer possibilidade de se justificar diante de Deus.

Nessa nossa argumentação dissemos que as razões do perdão do homem estão no próprio Deus. Dissemos isto baseados no que Paulo disse: “Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir?”. Quem foi que aconselhou Deus a perdoar o homem? Por acaso havia alguém junto dele dizendo o que fazer e a quem perdoar? A resposta é: Não.

Não havia, não há e não haverá qualquer razão no homem que convença Deus a perdoá-lo. Nenhum homem foi, é ou será puro como Deus exige que o homem seja. Se somos perdoados por Deus é porque ele tem razões dentro do seu próprio coração que o motiva a perdoar. Ele decidiu perdoar e a motivação para a sua decisão está dentro dele.

Do mesmo modo como a mulher traída não encontrou e nem encontrará justificativas para o marido traidor, Deus não encontrou e nem encontrará justificativas nos atos humanos para dar o seu perdão. No caso da mulher traída ela pode buscar as razões para perdoar o marido observando o perdão que ela mesma recebeu de Deus e assim pode imitar Deus e perdoar o seu marido. Mas Deus não foi perdoado por ninguém e nem precisa ser porque ele não pecou e não deve nada a ninguém.

A razão do perdão recebido pelo homem está no amor incondicional de Deus. Deus não impôs condições ao homem para perdoar, pois se assim fosse, nenhum homem seria perdoado. O homem é incapaz de ser totalmente fiel. Por mais que tenta ser fiel ele acaba sendo infiel em algum aspecto. Deus promoveu o modo e a razão para o perdão do homem. Ele mandou o seu filho para viver corretamente como ele exige que os homens vivam. Também ofereceu o seu filho inocente e puro na cruz para que ele, como homem perfeito, pudesse pagar o preço do pecado de outros homens. Agindo assim o próprio Deus criou as condições necessárias para perdoar os pecadores.

Nosso terceiro ponto de argumentação é que O PERDÃO RECEBIDO MUDA A VIDA DO PECADOR PERDOADO. Paulo disse assim: “Nós, porém, temos a mente de Cristo”.

Em Romanos 8.31-34, diz: “Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem ressuscitou, o qual está a direita de Deus e também intercede por nos”. Ao ler um texto como esse, sabendo que ele se refere a nós que aceitamos a Cristo como nosso Salvador, nos sentimos tranqüilos e seguros. Sabemos que tudo o que tinha de ser feito para nos garantir a entrada no céu já foi feito por Jesus. Sabemos também que Deus não está mais irado contra nós, porque os nossos pecados foram condenados ao serem postos sobre Jesus que os sofreu em nosso lugar.

Vimos também que ninguém mais pode nos acusar ou nos condenar, pois como eleitos de Deus somos justos porque o próprio Cristo nos justificou. O que mais nos importa? Ficaremos angustiados com o que pessoas possam falar a nosso respeito? Se o próprio Deus desejou estar próximo dos escolhidos e nos declarou limpos de nossas faltas, então não precisamos mais nos preocupar com o que dizem as pessoas. E além de tudo, ele ainda continua a interceder por nós.

E aí? Como fico? Vou andar de qualquer modo porque a salvação está garantida? Como diz Romanos 6.15: “E daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei e sim da graça? De modo nenhum!” A pessoa que é consciente do perdão recebido em Jesus Cristo, sabendo que ele levou sobre si todos os nossos pecados e essa tarefa lhe foi penosa e muito dolorosa, foge de todo caminho errado, buscando a santidade, mesmo que imperfeitamente, para, de algum modo, mostrar sua gratidão por todo o bem recebido de Deus. O homem perdoado por Deus sofre uma transformação radical em sua vida.

Zaqueu se encontrou com Jesus. Esse encontro mudou a sua vida. O perdão recebido redirecionou os seus passos. Ele abandonou suas antigas práticas desonestas e passou a ser um homem justo. Ele passou a se preocupar com o bem estar dos pobres e necessitados. Então Jesus disse: “Hoje veio salvação a esta casa”. A salvação oferecida gratuitamente mudou para sempre a vida de Zaqueu.

Jesus não pronunciou, à mulher pecadora, palavras de repreensão por seus atos pecaminosos. Ele levou todos que estavam ao seu redor a reconhecer que pecaram, inclusive a pecadora. Depois de se conscientizarem da realidade de que são pecadores, os algozes da pecadora foram embora, então Jesus olhou para aquela mulher e lhe disse: “Vai e não peques mais”. Ela se tornou uma discípula.

Essa mesma admoestação foi feita por Jesus a um coxo que fora curado por ele. Ele esperava um milagre impossível e Jesus o realizou em sua vida. Depois de curado do problema físico, Jesus lhe disse: “Vai e não peques mais, para que não te suceda coisa pior” (João 5.14).

Em todos esses casos houve uma mudança de vida. É por isso que dissemos em nossa argumentação que o perdão recebido muda a vida do cristão. Paulo disse:“Nós, porém, temos a mente de Cristo”. Essa é a maior mudança: Nós passamos a ter a mente de Cristo. Antes nossa mente era a mente dominada pelo espírito desse mundo. Éramos cegos e mortos espiritualmente. Agora não!

O cristão, depois de perceber o perdão recebido, passa a agir como o Mestre. Lembram-se da razão que levou a mulher a perdoar o marido? Ela passou a ter a mente de Cristo, e como Cristo foi capaz de perdoar pessoas injustificáveis, a mulher também pôde basear sua ação no amor de Deus e conseguiu perdoá-lo.

Em Mateus 5.1-11, encontramos as bem-aventuranças. Elas são a lista mais difícil de ser vivida pelos homens. Somente o cristão verdadeiro é que consegue agir como um bem-aventurado. Ser manso contra quem o oprime; ser humilde quando humilhado; ser misericordioso quando quem agiu contra nós não merece perdão; ser limpo de coração num mundo impuro, para deixar-se agir como Jesus agiria em seu lugar; aceitar as perseguições com alegria por ser identificado como servo do Senhor. Essas bem-aventuranças são a base da vida do cristão e ele somente viverá como lhe é exigido se tiver a mente de Cristo.

A pessoa que reconhece o perdão recebido de Deus passa a olhar para o próximo de modo diferente. Ao irmão da igreja que caiu no erro não se olha com desprezo, mas com compaixão. Procura levantá-lo e não derrubá-lo. Às pessoas que estão perdidas, o cristão que tem a mente de Cristo, olha com preocupação e responsabilidade por sua salvação. Essa mudança de atitude é gerada pelo reconhecimento do perdão recebido e por um coração agradecido por tudo o que Deus realizou em sua vida.

Para concluir relembraremos alguns pontos principais. Iniciamos o nosso estudo falando a respeito dos vários crimes cometidos e da dificuldade que os criminosos têm de se livrar da pena. Somente um ato de misericórdia é que os livraria. Nós somos os criminosos que foram alvo da misericórdia de Deus.

Esse foi o tema desse nosso estudo: A MISERICÓRDIA DE DEUS NOS GARANTE O PERDÃO.

Para confirmar o que afirmamos no tema, usamos os versículos 15 e 16, que nos levaram às seguintes argumentações:

1. QUEM FOI PERDOADO POR CRISTO NÃO PODE SER CONDENADO POR HOMENS.  “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém”.

2. AS RAZÕES DO PERDÃO DO HOMEM ESTÃO EM DEUS“Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir?”

3.O PERDÃO RECEBIDO MUDA A VIDA DO PECADOR PERDOADO. “Nós, porém, temos a mente de Cristo”.

Se você já é um privilegiado por ter a mente de Cristo, saiba que ninguém mais pode acusá-lo. Deus garantiu o seu perdão em Jesus Cristo. Se você tem consciência disto, então procure viver de modo digno do Senhor de sua vida. Deixe-se ser guiado pelo Espírito Santo e você verá a transformação que ele fará em sua vida.

4 comentários em “14 Condenado ou perdoado”

  1. Muito boa a abordagem do assunto. Parabéns meu irmão. Que Deus possa capacitá-lo mais e mais à cada dia, Fui muito edificado e confrontado.
    Deus abençoe em nome de Jesus.

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